POEMAS DE FERREIRA GULLAR

Nota y traducción: Didier Armas*

ferreiragullar

Ferreira Gullar nació en Sâo Luís Maranhâo, Brasil, en 1930. A los 21 años obtiene su primer premio por el poemario Um pouco acima do châo (1949). Se muda a Rio de Janeiro y publica A luta corporal, libro que abrió camino al movimiento de la poesía concreta. En 1959 lidera el grupo neoconcretista, cuyo manifiesto e ideas fundamentales expresó en el famoso ensayo: “Teoria do nâo objeto”. Más adelante reelabora su lenguaje para alcanzar la complejidad de los poemas que constituyen Dentro da noite veloz, editado en 1975. Forzado a exiliarse de Brasil en 1971, escribe en 1975 en Buenos Aires, su libro de mayor repercusión Poema Sujo. En 1999 recibe el Prêmio Alphonsus de Guimaraens, de la Biblioteca Nacional y en el 2000 el Prêmio Jabuti considerado uno de los premios más prestigiosos de Brasil. En el 2010 recibe el Premio Camôes, considerado el premio de más alta distinción en lengua portuguesa. Fallece en el 2016, a los 86 años.

O TRABALHO DAS NUVENS

Esta varanda fica
à margen
da tarde. Onde nuvens trabalham.

A cadeira não é tão seca
e lúcida, como
o coração.

Só à margem da tarde
é que se conhec
a tarde: que são as
folhas de verde e vento, e
o cacarejar da galinha e as
casas sob um céu: isso, diante
de olhos.

e os frutos?
e também os
frutos. Cujo crescer altera
a verdade e a cor
dos céus. Sim, os frutos
que não comeremos, também
fazem a tarde
                        (a vossa
tarde, de que estou à margen).

Há, porém, a tarde
do fruto. Essa
não roubaremos:
                               tarde
em que ele se propõe a glória d
não mais ser fruto, sendo-o
mais: de esplender, não como astro, mas
como fruto esplende.

E a tarde futura onde ele

arderá como um fach
efêmero!

Em verdade, é desconcertante para
os homens o
trabalho das nuvens.

Elas não trabalham
acima das ciudades: quando
há nuvens não há
ciudades: as nuvens ignoram
se deslizam por sobre
nossa cabeça: nós é que sabemos que
deslizamos sob elas: as
nuvens cintilam, mas não é para
o coração dos homens.

A tarde é
As folhas esperarem amarelecer
e nós o observamos.

E o mais é o pássaro branco que
voa – e que só porque voa e o vemos,
voa para vermos. O pássaro que é
branco
não porque ele o queira nem
porque o necessitemos: o pás-
saro que é branco
porque é branco.

Que te resta, pois, senão
aceitar?
              Por ti e pelo
pássaro pássaro


EL TRABAJO DE LAS NUBES

Este balcón esta
al margen
de la tarde. Donde nubes trabajan.

La silla no es tan seca
y lúcida, como
el corazón.

Sólo al margen de la tarde
es que se conoce
la tarde: que son las
hojas de verde y viento, y
el cacarear de la gallina y las
casas bajo un cielo: eso, ante
los ojos.

y los frutos?
y también los
frutos. Cuyo crecer altera
la verdad y el color
de los cielos. Sí, los frutos
que no comeremos, también
hacen la tarde
                         (vuestra
tarde, de la que estoy al margen).

Hay, sin embargo, la tarde
del fruto. Esa
no la robaremos:
                               tarde
en que ella se propone la gloria de
no ser ya fruto, siéndolo
más: de resplandecer, no como astro, mas
como fruto que resplandece.

Y la tarde futura donde él
arderá como un haz
efímero!

En verdad, es desconcertante para
los hombres el
trabajo de las nubes.

Ellas no trabajan
encima de las ciudades: cuando
hay nubes no ha
ciudades: las nubes ignoran
se deslizan por sobre
nuestra cabeza: somos nosotros quienes sabemos
deslizarnos bajo ellas: las
nubes titilan, pero no es para
el corazón de los hombres.

La tarde es
las hojas esperando amarillear
y nosotros observándolas.

Y lo demás es el pájaro blanco que
vuela –y que sólo porque vuela lo vemos,
vuela para vernos. El pájaro que es
blanco
no porque él lo quiera ni
porque lo necesitemos: el pá-
jaro que es blanco
porque es blanco.

Que te queda, entonces, sino
aceptar?
               Por ti y por el
pájaro pájaro.



CARTA DO MORTO POBRE

Bem. Agora que já não me resta qualquer possibilidade de trabalhar-me (oh trabalhar-se! não se concluir nunca!), posso dizer com simpleza a cor da minha morte. Fui sempre a que mastigou a sua língua e a engoliu. O que apagou as manhãs e, à noite, os anuncios luminosos e, no verso, a música, para que apenas a sua carne, sangrenta pisada suja –a sua pobre carne o impusesse, ao orgulho dos homens. Fui aquele que preferiu a piedade ao amor, preferiu o ódio ao amor, o amor ao amor. O que se disse: se não é da carne brilhar, qualquer cintilação ultrajes a tua carne, que é tudo! Qué ela, polida, não deixará de ser pobre e efêmera. Oh não ridicularizes a tua carne, a nossa inmunda carne! A sua música seria a sua humilhação, pois ela, ao ouvir esse falso cantar, saberia, compreender: “sou tão abjeta que nem dessa abjeção sou digna”. Sim, é no disfarçar que nos banalizamos porque, ao brilhar, todas as cousas são iguais –aniquiladas. Vê o diamante: o brilho é banal, ele é eterno. O eterno é vil! é vil! é vil!

                                                                                                Porque estou morto é que digo: o apodrecer é sublime e terrível. Há porém os que não apodrecem. Os que traem o único acontecimento maravilhoso de sua existência. Os que, súbit, ao se buscarem, não estão… Esses são os assassinos da beleza, os fracos. Os anjos frustados, papa-bostas! oh como são pálidos!

                                                             Ouçam: a arte é uma traição. Artistas, ah os artistas! Animaizinhos viciados, vermes dos residuos, caprichosos e pueris. Eu vos odeio! Como sois ridículos na vossa seriedade cosmética!

                                          Olhemos os pés do homem.

                                                                                                                    As orelhas e os pelos a crescer nas virilhas. Os jardins do mundo são algo estranho e mortal. O homem é grave. E não canta, senão para morrer.



CARTA DEL POBRE MUERTO

Bien. Ahora ya no me queda ninguna posibilidad de trabajarme (oh, trabajarse! no se concluye nunca!), puedo decir con sencillez el color de mi muerte. Fui siempre el que masticó su lengua y la engulló. El que apagó las mañanas y, las noches, los anuncios luminosos y, en el fondo, la música, para que apenas su carne, sangrienta pisada sucia –su pobre carne la impusiera al orgullo de los hombres. Fui aquel que prefirió la piedad al amor, prefirió el odio al amor, el amor al amor. El que se dijo: si no es propio de la carne brillar, cualquier brillo es una ofensa a tu carne que lo es todo, a nuestra inmunda carne! Su música sería su humillación, pues ella, al escuchar ese falso canto, sabría, comprendería: “soy tan abyecta que ni de esa abyección soy digna”. Sí, es al disfrazarnos que nos banalizamos porque, al brillar, todas las cosas son iguales –aniquiladas. Mira el diamante: el brillo es banal, él es eterno. ¡Lo eterno es vil! es vil! ¡es vil!

                                                  Porque estoy muerto es que digo: pudrirse es sublime y terrible. Hay, sin embargo, algunos que no se pudren. Los que traicionan el único acontecimiento maravilloso de su existencia. Los que, de súbito, al buscarse, no están… Esos son los asesinos de la belleza, los débiles. ¡Los ángeles frustrados, comemierdas! ¡oh cómo son pálidos!

                                                                                                                                                                                                                                                                 Escuchen:
el arte es una traición. ¡Artistas, ah los artistas! Animalillos viciosos, gusanos de los residuos, caprichosos y pueriles. ¡Yo los odio! ¡Como son ridículos en su seriedad cosmética!

                                                                                                                                                                                                                                                                    Miremos
los pies del hombre.

                                                               Las orejas y los pelos que crecen en las ingles. Los jardines del mundo son algo extraño y mortal. El hombre es grave. Y no canta, sino para morir.



AS PERAS

As peras, no prato,
apodrecem.
O relógio, sobre elas,
mede
a sua morte?

Paremos a pêndula. De-
teríamos, assim, a
morte das frutas?
                    Oh as peras cansaram-se
de sua forma e de
sua doçura! As peras,
concluídas, gastam-se no
fulgor de estarem prontas
para nada.
                     O relógio
não mede. Trabalha
no vazio: sua voz desliza
fora dos corpos.

Tudo é o cansaço
de si. As peras se consomem
no seu doirado
sossego. As flores, no canteiro
diário, ardem,
ardem, em vermelhos e azuis. Tudo
desliza e está só.

                              O dia
comum, dia de todos, é a
distância entre as coisas.
Mas o dia do gato, o felino
e sem palavras
dia do gato que passa entre os móveis
é pasar. Não entre os móveis. Pas-
sar como eu
passo: entre nada.

O dia das peras
é o seu apodrecimento.

É tranquilo o dia
das peras? Elas
não gritam, como
o galo.
           Gritar
para quê? se o canto
é apenas um arco
efêmero fora do
coração?

Era preciso que
o canto não cessasse
nunca. Não pelo
canto (canto que os
homens ouvem) mas
porque can-
tando o galo
é sem morte.


LAS PERAS

Las peras, en el plato,
se pudren.
El reloj, sobre ellas,
mide
su muerte?

Detengamos el péndulo.
Detendríamos, así, la
muerte de las frutas?
               Oh las peras se han cansado
de su forma y de
su dulzura! Las peras,
concluidas, se desgastan en el
fulgor de estar listas
para nada.
               El reloj
no mide. Trabaja
en el vacío: su voz se desliza
fuera de los cuerpos.

Todo es el cansancio
de sí. Las peras se consumen
en su dorado
sosiego. Las flores, en el jardín
cotidiano, arden,
arden, en bermejos y azules. Todo
se desliza y está solo.

                                       El día
común, día de todos, es la
distancia entre las cosas.
Mas el día del gato, el felino
y sin palabras
día del gato que pasa entre los muebles
es pasar. No entre los muebles. Pasar
como yo
paso: entre nada.

El día de las peras
es el de su pudrición.

Es tranquilo el día
de las peras? Ellas
no gritan, como
el gallo.
             Gritar
para qué? si el canto
es apenas un arco
efímero fuera del
corazón?

Era preciso que
el canto no cesara
nunca. No por
canto (canto que los
hombres escuchan) mas
porque can-
tando, el gallo
está sin muerte. 

didierarmas


*Didier Armas (San Luis Potosí, 1988). Estudió Lengua y Literaturas Hispánicas en UNAM FES- Acatlán. Ganador del Premio de Poesía Manuel José Othón 2024 por el poemario Ofrendas a Moloch (Ed. Reverberante). Los poemas traducidos de Ferreira Gullar son parte del libro A luta corporal (1954).